Densas florestas de carvalho no Parque Nacional da Peneda-Gerês
Parque Nacional da Peneda-Gerês: O Lado de Montalegre

Parque Nacional da Peneda-Gerês: O Lado de Montalegre

Portugal tem uma única área classificada como Parque Nacional. Não duas, ou cinco. Tem uma.

Esta distinção, que poderia ser apenas estatística, é na prática um convite a perceber o que torna este território verdadeiramente único: a dimensão, a biodiversidade, a antiguidade da sua proteção, e a forma como atravessa regiões, culturas e paisagens sem pedir licença a nenhuma fronteira administrativa. O Parque Nacional da Peneda-Gerês existe desde 1971, mais de cinquenta anos de proteção oficial de um ecossistema que existia muito antes de qualquer decreto. Conhecê-lo verdadeiramente exige mais do que uma visita de fim de semana. Exige atenção, tempo e a humildade de perceber que aqui a natureza manda.


Um Parque, Duas Regiões, Um Ecossistema

Uma das primeiras surpresas para quem aprofunda o conhecimento do Parque Nacional da Peneda-Gerês é perceber que ele não pertence a uma única região, pertence a duas, com extensões e características distintas, mas profundamente ligadas entre si.

A maior parte do território, cerca de 63%, encontra-se no Minho, distribuída pelos concelhos de Terras de Bouro, Arcos de Valdevez, Ponte da Barca e Melgaço. É aqui que se concentram as serras mais conhecidas do grande público, os percursos mais divulgados, e a maior parte da infraestrutura de receção de visitantes.

Os restantes 37% pertencem a Trás-os-Montes, e aqui reside uma das maiores surpresas do Parque. Apesar de ser representado por um único concelho, Montalegre, a sua extensão dentro da área protegida é enorme, e o seu caráter é completamente diferente: mais agreste, mais silencioso, menos visitado, e por isso mesmo mais intacto. É o Parque que poucos conhecem, e que os que conhecem raramente esquecem.


A Natureza que Não Respeita Fronteiras

A fauna e a flora do Parque Nacional da Peneda-Gerês não leram os mapas administrativos. Distribuem-se de forma contínua por todo o ecossistema protegido, respondendo apenas ao clima, à altitude e ao relevo, e ignorando completamente as divisões entre concelhos, entre distritos, entre regiões.

É esta continuidade ecológica que torna o Parque verdadeiramente especial. Não é uma ilha de natureza rodeada de intervenção humana, é um corredor vivo, onde os processos naturais funcionam em escala suficiente para se sustentarem.


Os Grandes Animais: Partilha Absoluta

Os animais emblemáticos do Parque movem-se livremente por todo o território, das serras minhotas aos planaltos transmontanos, sem distinção entre o Minho e Trás-os-Montes, entre Terras de Bouro e Montalegre.

O lobo-ibérico é talvez o símbolo mais poderoso desta liberdade. Predador de topo, indicador da saúde do ecossistema, presente no Parque há milénios, a sua existência aqui é simultaneamente um sinal de que o território funciona e um desafio constante à coexistência com as comunidades humanas que o rodeiam.

O corço é o símbolo oficial do Parque Nacional da Peneda-Gerês, um animal elegante, discreto, que habita tanto as florestas densas do Minho como os planaltos abertos de Montalegre, adaptando-se com uma versatilidade que impressiona.

O garrano, o pequeno cavalo selvagem que percorre as serras em liberdade, é talvez o animal mais icónico para quem visita o Parque pela primeira vez. Ver uma manada de garranos no horizonte, contra o céu aberto do Barroso, é uma daquelas experiências que não precisam de legenda.


A Flora: Da Floresta ao Planalto

A diversidade vegetal do Parque é igualmente notável, e varia de forma dramática consoante a altitude, a exposição solar e a proximidade à água. Nas zonas mais baixas e húmidas, dominam as florestas de carvalho-alvarinho e amieiro, acompanhadas de uma vegetação ripícola densa que acompanha os cursos de água. À medida que a altitude aumenta, a paisagem abre-se em tojais, urzais e prados de altitude, os lameiros que já aqui descrevemos noutros artigos , onde a biodiversidade floral é surpreendente, com orquídeas silvestres, narcisos e uma flora endémica que inclui espécies que não existem em mais nenhum lugar do mundo.

O Lírio do Gerês , o Iris bourgaeana, é talvez o exemplo mais conhecido desta exclusividade botânica: uma flor endémica, protegida, que floresce na primavera com um roxo que parece desafiar a aridez das rochas que a rodeiam.


O Parque Transfronteiriço: Gerês-Xurés

A proteção deste território não termina na fronteira portuguesa. Do lado espanhol, o Parque Natural Baixa Limia-Serra do Xurés, na Galiza, forma com o Parque Nacional da Peneda-Gerês a Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés, reconhecida pela UNESCO.
É uma das poucas reservas transfronteiriças da Europa, um reconhecimento de que os ecossistemas não cabem em fronteiras nacionais, e que a sua proteção exige cooperação além dos mapas.

Esta dimensão internacional confere ao território uma relevância que vai muito além do turismo regional, é um património natural de importância europeia e mundial.


O Parque pelo Lado de Montalegre

Para quem visita o Parque Nacional da Peneda-Gerês pelo lado de Montalegre, pelo Barroso, pelos planaltos, pelas aldeias de fronteira, a experiência é radicalmente diferente da entrada pelo Minho. É mais silenciosa, mais aberta, menos frequentada. Os trilhos são menos sinalizados mas mais selvagens. A paisagem tem uma escala diferente, horizontal, vasta, com o céu como teto e a montanha como horizonte.

É o Parque que o Gentes da Terra conhece melhor, e que mais quer mostrar. Não como alternativa ao lado minhoto, mas como complemento indispensável de um território que só se compreende inteiro quando se conhecem as suas duas faces.


Conclusão

O Parque Nacional da Peneda-Gerês é muito mais do que uma área protegida num mapa. É o único território de Portugal onde a natureza ainda funciona em escala suficiente para se sustentar, onde os predadores existem, onde os cavalos selvagens correm livres, onde as flores endémicas florescem sem que ninguém as tenha plantado.

Conhecê-lo é um privilégio. Protegê-lo é uma responsabilidade. E divulgá-lo, com honestidade, com respeito e com a consciência de que há uma diferença entre visitar e invadir, é precisamente o que esta página web se propõe fazer.

Um parque. Dois lados. Um ecossistema. E uma razão de sobra para vir devagar.

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